terça-feira, março 08, 2011

O futuro da mulher e as meninas na China

Por Isis Valéria

Março nos traz, além das tradicionais águas, cantadas por Tom Jobim, em sua famosa canção, a comemoração do Dia da Mulher no dia 8.

Já ouvi muitas vezes comentários sobre por que a mulher deveria ter um dia especial, no calendário do ano.

Com certeza a mulher ainda é um gênero que sofre injustiças, preconceitos e rejeições. Desde a maldição bíblica até os nossos dias convive com todos os tipos de tabus e atos de extrema crueldade. Basta um olhar para os rostos cobertos pelos véus islâmicos. O simples fato de mostrar o rosto é motivo de vergonha e repressão.


Potencias mundiais ricas, de culturas milenares evoluíram muito pouco ou, quase nada nos costumes de suas mulheres. Algumas regrediram muito como a Pérsia, o nosso Irã de hoje, do presidente Ahmadinejad. No Irã do Xá Reza Pahlevi, o último Xá do país, derrubado por uma revolução em 1979, as mulheres não cobriam o rosto. Farah Diba Pahlevi, sua esposa e também a última imperatiz do Irã era uma mulher belíssima que jamais cobriu o seu rosto, mesmo nas fotos oficiais do país. E por que nos lembramos do Irã? O país tem o IDH de 2010 de 0,710 ( cat. elevado ) claro, a opressão feminina não é um item desse índice internacional.

País rico, poderoso que domina a tecnologia atômica.

A China é hoje, a segunda economia do mundo. Atrás apenas dos Estados Unidos e lá, o que temos para contar em relação à posição do gênero feminino. Uma historinha de terror.

Meninas não são bem vindas nas famílias. Nas aldeias, ou mesmo nas cidades maiores, a elas é negado o direito de nascer *

Quando não são abortadas, geralmente são afogadas nas próprias aguas das bacias do parto. Quem faz esse trabalho sujo? Ora as mulheres: parteiras, ou uma parente da mãe, penalizada porque ela pariu uma menina. Estamos falando de infanticídio. Assassinato de bebes. Uma prática milenar chinesa, de rejeitar as filhas mulheres. Foi agravada pela política do filho único, no país. Nada a ver com a política do filho único em si. É que por lá, o homem é o rei e senhor, que deve ser o primogênito de seu pai em todos os lares.

E aí as histórias, o uso e costume das culturas, homens são mais fortes para o trabalho no campo, são os protetores dos pais e toda essa balela que o Conhecimento formal não consegue combater como deveria.

Se as meninas escapam da morte no nascedouro, acabam sendo colocadas nas ruas, abandonadas em locais distantes de suas casas caminham e vagam sem nenhum socorro. Às vezes são recolhidas pelos carros oficiais do governo chinês que as colocam em orfanatos. Há uma política de adoção para estrangeiros e muitas delas vão parar em países ocidentais, amparadas e adotadas por famílias ricas americanas e, as vezes recebem um lar na casa de gente famosa, artistas de Holyhood, pessoas politicamente corretas que julgam
minimizar os males sociais com pequenas porções de caridade.

Ações trazem conseqüências.

Para fazer uma projeção do quadro, temos como primeira observação a Mulher loba da Mulher.

A mãe que nega o instinto primário de qualquer mamífero, matando ou consentindo na morte de sua própria filha. Com o feto, ainda no ventre, ou em meio às dores do parto decide o que fazer. É ela, ela mesma, ou a outra mulher: a filha. É preciso escolher. Há relatos de espancamento das mulheres pela família dos maridos. Quando não apanham e sofrem males físicos tem a sua ração alimentar reduzida ao mínimo para morrer de inanição.

As meninas que escapam dessa tragédia da morte anunciada crescem, via de regra, em famílias estruturadas. De 2007 até hoje, são 120 mil adoções oficiais de meninas Chinesas, só nos Estados Unidos perdidas e/ou achadas na cultura ocidental, com pais louros de olhos azuis. Muitas já são adolescentes, ou mulheres com mais de 20 anos, educadas, abastadas e perplexas com a História da sua história.

O que são 120 mil meninas chinesas, órfãos de pais vivos, na memória de um país que tinha 700 mil em 1966 e hoje está com uma população de 1,300 bilhões de habitantes? O que o futuro dirá?


*Titulo de uma novela mexicana dos anos 50.

Fontes.
XINRAN. Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida. Tradução Caroline Cahg. São Paulo: Ed. Cia das letras

Jornal Estado de São Paulo de 18/2/2011
Caderno 2 - Entrevista página 10

Um comentário:

Abdonildo José disse...

Querida Isis, marcado pela acidez costumeira, exemplarmente fundamentando e corajoso, seu olhar cidadão corta na própria carne posto sua condição feminina altiva, indelével. Parabéns por mais este artigo em defesa da vida.