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sábado, novembro 23, 2013

Filosofia não serve para nada

Por Nelson José de Camargo*

Depois de muito filosofar, cheguei à conclusão de que a filosofia não serve para nada. Para justificar tal conclusão, apresento a seguir uma série de argumentos irrefutáveis.

O maior empresário brasileiro e um dos homens mais ricos do mundo (em breve o mais rico) é um verdadeiro exemplo de empreendedorismo. Dedicou-se a estudar coisas práticas, como prospecção de petróleo, e graças a ele nosso país será em breve uma grande potência petrolífera. E ele jamais leu as Meditações de Descartes.

O melhor presidente do Brasil em todos os tempos, que erradicou a miséria e fez do nosso país uma potência emergente, nunca ouviu falar em juízos analíticos e juízos sintéticos. Na verdade, ele se orgulha de nunca ter lido um livro na vida.

O maior cantor de todos os tempos, nosso verdadeiro rei, jamais se preocupou com qualquer discussão sobre liberdade, democracia, autoritarismo, censura ou todas essas baboseiras acadêmicas.

Nossos craques de futebol nunca ouviram falar em dialética, lógica, pré-socráticos, socráticos, filosofia helenística e todas essas velharias poeirentas que ficam mofando nas bibliotecas, mas encantam o mundo com suas jogadas espetaculares nos grandes clubes da Europa.

sexta-feira, outubro 19, 2012

A “estética do consolo” como atributo de poder

Por Hailton Santos

Os novos tempos de Brasil culminam em uma sociedade desprestigiada, sem valores éticos e/ou motivação para o trabalho justo.

Num período multipolar no qual não faz mais sentido falar em verdade absoluta, mas em verdades questionáveis, há quem ainda postule e defenda uma única verdade. Nesse sentido, se você não pensa comigo está contra mim, logo é meu inimigo. É este, destarte, o sentimento de uma parcela da esquerda brasileira.

A “quadrilha do mensalão”, como assim classificou Joaquim Barbosa (ministro relator do processo), representa o desdobramento de um projeto de manutenção de poder patrocinado por forças de esquerda que tentam imprimir (a qualquer custo) sua ideologia em detrimento das demais. A historiografia nos diz que o poder que se faz pela força não se sustenta. E nesse sentido, a esquerda retrógrada de hoje não aprendeu com os erros praticados pelos jacobinos da revolução francesa (1789). Sem experiências democráticas, os radicais insistiram em restaurar regimes ultrapassados como parâmetros de uma República popular. Para tanto, era preciso impor um regime autoritário que fizesse valer a ideologia dominante. Daí o fracasso dos revolucionários ao tentar impor a vontade de um grupo em detrimento da liberdade de um povo.

Nesse sentido, o partido que patrocinou o “mensalão” segue os mesmos preceitos. Reprime a liberdade de expressão do congresso pela compra de apoio e, concomitantemente, do cidadão comum, já que o parlamentar é o legítimo representante do povo.

Filosofia se aprende na escola?

Por Nelson José de Camargo*


“Não se aprende Filosofia, mas a filosofar.” 

Kant.


Nos últimos anos, houve no Brasil uma notável expansão do nível de matriculados no ensino superior, mas a qualidade da maioria dos cursos não é boa. O grande gargalo da educação brasileira continua sendo o ensino médio, que não forma profissionais de nível técnico para o mercado de trabalho, nem oferece formação científica para quem deseja cursar cursos superiores na área de exatas. Há uma grande carência de engenheiros no país. Nesse contexto disciplinas como Filosofia e Sociologia foram introduzidas no ensino médio.

Mas o que é realmente “filosofar”? Por que Aristóteles, Descartes, Kant, Nietzsche, Heidegger e outros nomes mais ou menos ilustres tornaram-se “filósofos”?

Os grandes pensadores, enquadrados ou não na categoria de “filósofos”, foram movidos pelas grandes questões do mundo e da vida. O que é justiça? O que é belo? O que é a verdade? Qual o sentido da vida? A inquietação provocada por essas e outras questões é que produziu as grandes obras do pensamento humano.

O problema é que a filosofia deixou de ser reflexão para se tornar meramente análise de texto. Não são mais as grandes questões que movem os “filósofos” de hoje, mas sim o estudo metódico de um pensador específico. Essa “especialização” tira o caráter questionador e reflexivo da Filosofia, que afinal é sua razão de ser. Hoje o que se verifica é que a maioria dos professores de Filosofia é “especialista” em algum pensador. Há “kantianos”, “nietzschianos”, “hegelianos”, etc. Isso é Filosofia? Se for, Platão foi “especialista” em quem? E Aristóteles? E Espinosa, Schiller, Rousseau, Hume...

Se isso ocorre no ensino superior, que Filosofia será ensinada aos jovens do ensino médio? Os cursos serão de mera análise de texto, num nível muito menos profundo do que se faz na academia, ou haverá espaço para a verdadeira reflexão filosófica? Provavelmente nem uma coisa, nem outra. A Filosofia no ensino médio acabará servindo para doutrinar os jovens com ideias de anteontem.

*Nelson José de Camargo é Jornalista e Bacharel em Filosofia

sábado, março 24, 2012

Filosofia e literatura

Por Nelson José de Camargo*
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Filosofia e literatura têm diferenças e semelhanças. Ambas usam a linguagem para comunicar algo a alguém. Na Filosofia, o principal objetivo é expressar conceitos, ideias. Na literatura, existe a narrativa, isto é, o ato de contar uma história.

No entanto, a diferença entre uma obra literária e uma filosófica é mais sutil do que pode parecer à primeira vista. Os diálogos de Platão, por exemplo, poderiam muito bem ser enquadrados nas duas categorias – literatura e filosofia.

Ninguém dirá que Kant foi um literato – no sentido de que seu texto tem elegância e estilo dos grandes escritores – mas o que dizer de um Nietzsche? Poemas e aforismos, tão frequentemente empregados pelo autor do Zaratustra, são formas literárias.

Rousseau foi autor de um romance de sucesso na época: A bela Heloísa. Sartre tornou-se conhecido não apenas por sua filosofia, mas também pelos seus romances. E poucos escritores são tão filosóficos como Thomas Mann e Machado de Assis.

A Filosofia, como diz Wittgenstein, deve “tornar claros e delimitar precisamente os pensamentos, antes como que turvos e indistintos”[1]. Nem sempre a literatura é assim: basta ler autores obscuros como Joyce para comprovar.

domingo, março 18, 2012

Você e Deus


Por Ana Lucia Sorrentino*
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Quem começa a se interessar por filosofia logo percebe que Deus e o Amor são temas recorrentes nos textos filosóficos.Em “Amor” André Comte Sponville, filósofo francês da atualidade, afirma ser esse assunto o mais interessante de todos. Contra os que não concordam com essa ideia, Comte argumenta que, mesmo que não estejamos falando de amor, estamos sempre falando do amor que temos por algo ou por alguém.

Assim como o Amor, Deus parece ser, senão o assunto mais interessante, um assunto quase sempre inevitável para os filósofos. Se ele não for o tema central da reflexão, acabará sendo a causa ou solução para quase tudo que não se consegue compreender ou assimilar.

Muitas vezes a motivação primeira dos questionamentos filosóficos é um profundo sofrimento por conta de imposições religiosas baseadas em ideias fantasiosas sobre Deus. E não é raro que, na busca pelas suas verdades, o filósofo acabe se enroscando em suas próprias teorias e termine apelando para Deus. Não é muito difícil entender o porquê disso.

Deus é uma daquelas verdades que encontramos prontas quando chegamos ao mundo. Recebemos essa ideia já elaborada e ao longo de toda a nossa vida, tentaremos entendê-la e estabelecer com ela a melhor forma possível de relacionamento.

Mal aprendemos a pronunciar “mamãe” e já estamos às voltas com “Papai do céu”. Crescemos convivendo o tempo todo com expressões como “Vai com Deus, Deus é mais, Deus te acompanhe, Deus te ajude, Deus te Guie... Deus castiga. Deus sabe o que faz. Deus escreve certo por linhas tortas. Graças a Deus... Meu Deus!” – Como é que poderíamos conceber com facilidade a ideia de um mundo sem um criador?Com todo respeito, e pedindo aos filósofos de carteirinha que me perdoem, eu acho fantástico imaginar que Descartes tenha se torrado os miolos pra concluir que, se havia nele uma ideia de Deus, era porque o próprio Deus havia colocado essa ideia nele. Por acaso Descartes vivia em algum universo paralelo, isolado de tudo e de todos?

sábado, março 03, 2012

O que é proibido atrai?

Por Nelson José de Camargo*

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Em tempos politicamente corretos, cabe ao Estado definir o que as pessoas devem ou não fazer. Existe uma campanha cada vez mais forte contra as bebidas alcoólicas. Atualmente, os menores de 18 anos não podem consumir nenhum tipo de bebida alcoólica, mesmo na companhia dos pais e com o consentimento destes. “Álcool para menores é proibido” é o slogan da campanha.

Quando vamos ao supermercado, nos perguntam se vamos pagar a conta com cartão alimentação; pois se comprarmos uma bebida alcoólica, não podemos usar o vale.

Enquanto isso, crianças, jovens, adultos e velhos consomem refrigerantes que contêm acidulantes, corantes, edulcorantes, flavorizantes e uma série de produtos químicos nocivos à saúde; no caso dos refrigerantes diet, há suspeitas de que os principais edulcorantes utilizados para substituir o açúcar – sacarino e ciclamato – possam ter efeito cancerígeno.

Mas a patrulha politicamente correta elegeu um vilão – as bebidas alcoólicas são as viças que devem ser combatidas. Muitas pessoas são favoráveis à proibição de qualquer propaganda de bebida alcoólica. E quantos não ficariam contentes se o comércio e o consumo de bebidas fosse totalmente proibido?

Isso remete à lei seca nos Estados Unidos – período em que houve a maior criminalidade naquele país. Basta lembrar da Chicago dos anos 30, de Al Capone, da máfia...

domingo, fevereiro 26, 2012

Ética ou moral na política?

Por Nelson José de Camargo*


“A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade.”
                                                                                                    Kant


O Brasil é hoje uma potência emergente. É a sexta maior economia do mundo, e pode crescer ainda mais. Temos democracia plena, mas antigos problemas persistem, como a violência e a corrupção.

Alguns políticos se apresentaram como “guardiões da moralidade pública” e pautaram sua plataforma política na “ética, na moralidade e na austeridade”. Quase sempre, porém, os resultados obtidos por partidários de tais slogans foram desastrosos. Basta examinar a trajetória do exótico presidente que chegou ao poder para “varrer a corrupção e a bandalheira”, ou do infame “caçador de marajás”.

Esse discurso moralista, porém, sempre encontra repercussão, especialmente na classe média urbana dos grandes centros. Mirando esse eleitorado, políticos que se apresentam como representantes da “social-democracia brasileira” são na verdade representantes das elites conservadoras.

É exemplar o caso de um líder político que começou sua carreira apoiado por uma organização católica, mas que sempre se apresentou como “de esquerda”; escamoteando suas reais convicções, conseguiu galgar postos importantes, embora tenha fracassado em duas tentativas de chegar ao executivo federal.

A postura desse tipo de político nos leva a questionar o que é realmente ser ético; seria talvez aplicar verdadeiramente o que Kant propõe como o imperativo categórico, isto é, agir como se nossas máximas pudessem ter validade universal.

sábado, fevereiro 04, 2012

Condição humana e liberdade estética

À LUZ DA ESTÉTICA SCHILLERIANA

Por Hailton Santos

No século XVIII, considerado o século das luzes, surgem os conceitos de “progresso” e “desenvolvimento”, propiciando o início de um novo tempo. Com efeito, é dada a largada para o desenvolvimento “a qualquer custo”.[1] Neste contexto é relevante assinalar que a temática da Bildung (formação cultural) é tema recorrente nas obras de cunho estético/filosófico do período, caracterizando, deste modo, um foco de resistência ao progresso desenfreado. A este complexo temático denominou-se Aufklärung (Iluminismo ou Esclarecimento).

Com o advento da industrialização as pessoas passaram a competir mais e mais entre si. “A crença no progresso expôs o homem a todas as regressões. Seu individualismo estimulou o advento do sujeito egoísta, preocupado unicamente com o ganho e a acumulação”.[2] Nos dias de hoje vale a satisfação pessoal em detrimento ao coletivo. Com efeito, esse sentimento que já é parte da cultura faz do “homem lobo do homem”.[3] Nessa estética do eu, o homem perde a noção de “ser social”, de “ser humano” e, sem referências conceituais, o homem da modernidade é refém de si mesmo, sobretudo porque está a serviço de uma engrenagem que ele mesmo faz girar.

Faz-se necessário, portanto, uma pedagogia da razão que assegure o equilíbrio entre intelecto refinado (razão sem sentimento) e homem bruto (sentimento sem razão). O primeiro refém de seu ego, o segundo de seus impulsos primários. Isto implica, todavia, uma reformulação da civilização. A estética como categoria existencial e princípio de realidade.

Eis aqui o problema de nosso ensaio, se o conhecimento humano é construído sobre juízos sintéticos a posteriori, como quer o homem contemporâneo, seria possível estabelecer princípios universais e necessários – a priori – para juízos estéticos? É possível juízo de gosto universal?

À luz das teorias de Kant, no texto A educação estética do homem (1783), Schiller apresenta a dimensão estética como libertação da sensualidade frente à dominação repressiva da razão. O sentimento de belo como fundamento à vida. A estética como princípios válidos para os dois polos da existência humana, a saber, sensibilidade e moralidade, ou sentimento e razão. É esse, portanto, o sentido prático da estética, e é por meio dessa temática que seguirá toda fundamentação deste ensaio.

domingo, janeiro 22, 2012

O existencialismo é um humanismo

Por Hailton Santos

Nesse texto[1] Sartre responde às críticas dirigidas ao existencialismo advindas, principalmente, dos marxistas e dos católicos.

A crítica marxista diz que o existencialismo leva as pessoas a uma filosofia contemplativa devido à inacessibilidade de suas soluções. Com efeito, o existencialismo não passa de uma filosofia burguesa.

Já os católicos acusam o existencialismo de negligenciar certas coisas belas e alegres da natureza humana, como o sorriso da criança, por exemplo. A crítica cristã diz que se suprirmos os mandamentos de Deus e os valores inscritos na eternidade, não resta mais que a estrita gratuidade, e cada um poderá fazer o que quiser.

Segundo Sartre, a essência de toda crítica, é que o existencialismo acentua o lado ruim da vida humana. No entanto, diz Sartre: “as mesmas pessoas que adoram canções realistas são aquelas que reclamam que o existencialismo é muito sombrio, a tal ponto de eu me perguntar se eles não estão se queixando mais do otimismo do existencialismo do que, na verdade, de seu pessimismo”.[2]

Assim, a doutrina existencialista parte, inicialmente, da subjetividade, ou seja, da noção de que a existência precede a essência. De acordo com o autor, somente nos objetos da técnica a essência precede a existência. A exemplo do corta-papel, cujo conjunto de procedimentos que permite produzi-lo e defini-lo precede sua existência. Nesse sentido, o conceito “homem” segue os mesmos preceitos, ou seja, um conjunto de regras (essência) atribuídas ao homem que precede ao “animal homem”. Para o autor, esse conjunto de regras está em desacordo com a verdade histórica com que nos deparamos.[3]

sábado, janeiro 21, 2012

O que é a filosofia?

Por Nelson José de Camargo*

A filosofia voltou a fazer parte do currículo do ensino médio. Mas para que servirá? Talvez para doutrinar nossos estudantes com ideias pseudomarxistas retrógadas. Ou nossos estudantes terão apenas um “panorama” dos principais filósofos?

Kant já disse que não se ensina filosofia, mas a filosofar. Mas o que é ensinar a filosofar?

Em primeiro lugar, temos de estudar os filósofos no contexto em que viveram. Nietzsche, por exemplo, é homem de seu tempo, do romantismo alemão; Marx surgiu no contexto da revolução industrial; Hegel, Fichte e Schiller são figuras do idealismo alemão, que foi influenciado por Kant e Goethe; Kant, por sua vez, foi influenciado pelos racionalistas e empiristas: Descartes, Spinoza, Hume, Leibniz; o racionalismo foi uma consequência do humanismo renascentista, que resgatou a cultura clássica greco-romana; mas mesmo nas trevas da Idade Média, os escolásticos preservaram a filosofia de Platão e Aristóteles, ainda que tentando adaptá-la aos dogmas cristãos; e na Grécia antiga, como sabemos, surgiu o que chamamos de filosofia.

domingo, janeiro 15, 2012

Édipo tirano, Édipo Freud: humanismo e cultura

Por José Hailton Santos

O texto em questão é uma tentativa de elucidar duas indagações ligadas ao contexto da tragédia Édipo Tirano de Sófocles: em primeiro lugar, trata-se de saber até que ponto a hermenêutica poderá nos conduzir a uma efetiva compreensão da tragédia. Em segundo, da relação do mito com a cultura contemporânea.

No mundo contemporâneo a tragédia se apresenta por duas vertentes principais: como abordagem das ciências humanas e diretamente no seio da cultura. Como exemplo da primeira o estereótipo complexo de Édipo freudiano; como exemplo da segunda o drama vivido pelo casal Celso Pitta e Nicéa Pitta no começo dos anos 2000.

Em suas diferentes versões históricas, reelaborado com outras formas e funções, o mito passa a nos revelar algo que transcende o próprio teor histórico e cultural da época. Assim, trazê-lo para o âmbito do conhecimento como busca da origem é excluir uma de suas principais características, a saber, seu caráter mimético (no sentido aristotélico) de fazer transformar o espírito do leitor/espectador, seja pela piedade seja pelo terror.

Foi o que aconteceu com o chamado Complexo de Édipo freudiano. Devido à popularidade da psicanálise, o mito de Édipo tornou-se uma das grandes referências do século XX. No entanto, a difusão social desse mito, tal como mediado pela leitura da psicanálise, fez surgir um novo Édipo, o qual é descrito por um complexo simbólico e patológico que incide sobre as identidades individuais e coletivas. Nesse sentido, a tragédia perde seu valor semântico, pois, de antemão a psicanálise estuda a origem.

O futuro da humanidade

Por Nelson José de Camargo*

A espiritualidade é inerente ao ser humano? Pode-se afirmar que sim, considerando que a maioria das pessoas tem necessidade de pertencer a um "rebanho" e de ter um "pastor" para guiá-las. O super-homem de Nietzsche é justamente o indivíduo que conseguiu se libertar da culpa judaico-cristã, que não precisa mais de um "pastor", e foi além do homem. Não é mais um indivíduo tolhido pelo pecado e pela culpa, mas sim livre para desfrutar da vida em sua plenitude.

O termo que Nietzsche usou, traduzido em português como super-homem, é Übermensch: über significa sobre, além, e Mensch é homem; logo, o super-homem nietzschiano é literalmente o indivíduo que "superou o homem", e não alguém dotado de “superpoderes”.

Hobbes diz que o "homem é o lobo do homem", e que para permitir uma vida em sociedade minimamente digna foi necessário criar o Estado, com todas as suas implicações positivas e negativas. Já Rousseau afirma que "o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe".

domingo, julho 17, 2011

A filosofia de Nietzsche e o nazismo

Por Nelson José de Camargo*

Nietzsche é certamente o filósofo mais popular e mais lido do mundo; seus livros são vendidos em bancas de jornal, em máquinas automáticas e até mesmo adaptados para histórias em quadrinhos; o Zaratustra inspirou o célebre poema sinfônico de Richard Strauss, trilha sonora do filme 2001, de Stanley Kubrick.

Mas a influência da filosofia de Nietzsche (e da filosofia de modo geral) nem sempre (ou quase nunca) foi positiva. O pensamento nietzschiano chegou a influenciar o regime político mais nefasto e abominável que já existiu no planeta: o nazismo.

Adolf Hitler era leitor de Nietzsche: na biblioteca particular do ditador, havia vários livros do pensador alemão, com muitas anotações nas margens das páginas. A mais frequente era “nicht verstanden” (não entendi).

Hitler era um homem de pouco estudo e pouca cultura, que tentou ser pintor acadêmico antes de começar sua carreira política. Seu livro Mein Kampf (Minha luta), é escrito em um alemão tosco, que demonstra claramente a deficiente formação cultural do líder nazista.

No entanto, Martin Heidegger, um dos grandes filósofos do século XX, aderiu publicamente ao nazismo e chegou a fazer discursos elogiando esse regime.

O “protonazismo” de Nietzsche é uma questão altamente controversa. Em Além do bem e do mal, o filósofo escreve que “os judeus são a raça mais autêntica e vigorosa da Europa”, e no mesmo livro afirma que eles são um povo “nascido para a escravidão [...] e com ele todo o mundo antigo, o ‘povo eleito entre as nações’ [...] os judeus realizaram esse milagre da inversão de valores, graças ao qual a vida na terra adquiriu um novo e perigoso atrativo”.

É fato amplamente conhecido que Nietzsche era crítico feroz da democracia representativa ocidental, que para ele era apenas reflexo da “moral de animal de rebanho”[1].

O conceito do super-homem nietzschiano também deu margem a atitudes racistas e eugenistas. Frases como “Os fracos e os fracassados devem desaparecer: primeira frase de nosso amor à humanidade”, ou “O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão com todos os fracos e fracassados – o cristianismo”[2] podem facilmente servir de “combustível” para ideologias totalitárias.

domingo, junho 19, 2011

O ser humano é racional?

Por Nelson José de Camargo*

O ser humano chamou a si mesmo de “homo sapiens”, homem sábio. O único capaz de raciocinar, “feito à imagem e semelhança do criador”, e por isso mesmo com direito de impor seu domínio sobre a natureza e sobre as demais criaturas.

Comportamentos ditos racionais podem ter outros fundamentos. Vejamos alguns exemplos.

Em uma escolha entre agir e não fazer nada, um agente racional não irá agir se os custos esperados para a ação superarem os respectivos benefícios. Este princípio, porém, é violado nas eleições: uma vez que nenhuma eleição em nível nacional jamais foi decidida por um único voto, o voto de um indivíduo não faz qualquer diferença no resultado e ele pode enfrentar problemas consideráveis para votar. No entanto, as pessoas votam em grande número.

Pode-se alegar que esse exemplo é mais adequado para os países em que o voto é facultativo; no Brasil é obrigatório, assim como em pouco mais de 20 países, 11 deles nas Américas do Sul e Central. Ser obrigado a votar não é, por sua vez, um procedimento totalmente contrário a razão? E se nenhum dos candidatos nos agradar? E se formos contra o modelo de democracia representativa ocidental?

sábado, junho 04, 2011

Um outro mundo tem que ser possível

Por Helena Novais*

Na semana passada estive com a cabeça bem distante do que ocorria na faculdade. Quase não apareci por lá. Em final de semestre isso não é nada bom. Mas tive um motivo: o desenvolvimento de um trabalho de pesquisa sobre marketing social que eu deveria finalizar naqueles dias. Além da fundamentação teórica, fiz estudo de caso. Como tive liberdade para escolher a empresa a ser estudada, escolhi uma multinacional que me interessa em especial. Esmiucei todo o histórico da empresa, sua linha de produtos e suas ações de marketing de cima abaixo e vice-versa. Foi uma boa oportunidade para desenvolver ainda mais o tema que apresentei no simpósio na USJT no ano passado. Agora além da perspectiva filosófica tenho um estudo de caso. Assim, se perco não assistindo as aulas, acabo ganhando de outro lado.

E vamos admitir: é inegável o poder de realização das grandes corporações! Uma companhia que é considerada a maior do mundo em seu segmento pode quase tudo. E sim, a atuação social de grande empresas, suas campanhas de “responsabilidade social” e “sustentabilidade” são boas. Muito boas! Desde que analisadas em si mesmas, com base nas informações emitidas pelas próprias empresas, não há de que falar mal. E convenhamos, não poderia ser de outra forma, já que a imagem institucional dessas empresas é gerida por profissionais de formação acadêmica e experiência prática comprovada... Mas eles às vezes se denunciam...

A dialética hegeliana

Por Nelson José de Camargo*

O pensamento hegeliano teve suas origens no idealismo alemão. Hegel foi contemporâneo de dois dos principais pensadores dessa corrente: Fichte e Schelling (de quem foi colega no Seminário de Tübingen). Nesse contexto, também teve grande destaque a filosofia de Kant, cuja influência sobre a filosofia alemã (e em toda a filosofia) foi imensa.

Mas há um importante diferencial no pensamento de Hegel em relação a seus antecessores: a dialética, que será o centro de sua filosofia.

Na Crítica da razão pura, Kant estabelece uma divisão entre “fenômeno” e “coisa em si”. Para Kant, não podemos ter conhecimento sobre o mundo real (as “coisas em si”), mas apenas das representações deste mundo, formadas na mente a partir das percepções de nossos sentidos. Conhecemos, portanto, os fenômenos, por meio da experiência. No entanto, há conhecimentos, universais e necessários, que não são adquiridos pela experiência, sem os quais nenhuma forma de conhecimento seria possível: são os juízos sintéticos a priori. Logo, há um limite bem definido entre o que podemos e não podemos conhecer.

Se Hegel por um lado reconhece que Kant “colocou a dialética em seu nível mais alto” uma vez que atribui a ele a “redescoberta da tríade dialética”[1], por outro lado não aceita esse limite. A crítica kantiana não foi capaz de perceber a identidade entre sujeito e objeto e, portanto de progredir rumo ao Absoluto, síntese final da tríade dialética em si (sujeito), para si (objeto) em si-para si (objeto, tal como conhecido pelo sujeito, e sujeito, que reconhece a si mesmo ao reconhecer o objeto).

Fenômeno e coisa em si não seriam mais que “representações de um Absoluto separado do conhecimento ou de um conhecimento separado do Absoluto”[2]. Em Kant, as determinações permanecem essencialmente subjetivas, “presas ao objeto”[3]. Ocorre uma “cisão” entre sujeito e objeto. A tarefa da filosofia seria superar essa cisão. Para tanto, era “elevar as determinações de pensamento acima desse ponto de vista medroso”[4].

domingo, abril 24, 2011

“Tudo é verdade e nada é verdade”

Uma leitura da obra O estrangeiro de Albert Camus

Por Hailton Santos

Com a morte de Deus anunciada por Nietzsche o homem moderno sentiu-se livre para extrapolar suas emoções. Sem uma divindade a quem prestar contas, o homem da modernidade é livre para fazer aquilo que bem entender. Assim entendeu Smerdiakóv, personagem de Dostoiévski na obra Irmãos Karamazov (1879), que assassina o próprio pai com a justificativa de que vira um texto (supostamente do pai) com a seguinte frase: “Se Deus não existe tudo é permitido”. Como colorário, disse Smerdiakóv: “Se deus definitivamente não existe, então não existe nenhuma virtude, e neste caso ela é totalmente desnecessária”.[1] Aqui está o problema[2]. É esse o sentido de liberdade no mundo moderno. Sem ideais de bem comum, o homem da modernidade vive a sua insignificância existencial. O estrangeiro de Albert Camus é o retrato desse abismo existencial.

Meursault, personagem central de O estrangeiro, vive a “plenitude” e a “insignificância” do instante. Recusa a lógica da sociedade; a engrenagem que move as ações humanas e a busca por causa e efeito. Talvez porque não dê importância e sentido essencial às coisas no mundo. Isto ficou evidente quando lhe foi perguntado sobre o motivo de ter atirado no árabe. Ele simplesmente respondeu: “por causa do Sol”. Ou seja, não deu sentido aos fatos. Por assim dizer, uma gratuidade pela indiferença.

Como a indiferença vivida por Meursault é consequência da desilusão do homem moderno, desprovido de valores comunitários e guiado por “forças narcísicas”,[3] é possível relacioná-la à doutrina do eterno retorno apontada por Nietzsche?

domingo, abril 17, 2011

O que é a vida?

Por Nelson José de  Camargo*

Esta é uma questão que vêm ocupando a mente de cientistas, filósofos e de muitas pessoas desde os primórdios da raça humana.

Para Aristóteles, são características dos seres vivos: nutrição, sensação e, em alguns deles, a intelecção. Essas características são decorrentes da presença da alma (yuchz), exclusiva dos seres vivos.

A nutrição seria a característica fundamental a todos os seres vivos, uma vez que até as plantas a possuem. Os animais, além da nutrição, possuem a sensação, caracterizada pela presença dos órgãos dos sentidos, responsáveis pelas percepções de tato, paladar, olfato, audição e visão. Desses sentidos, o tato é comum a todos os animais. Um animal pode ter ou não visão e audição, mas tem necessariamente tato.

Portanto, segundo Aristóteles, a alma poderia ser dividida em três partes: nutritiva (comum a todos os seres vivos), sensitiva (presente nos animais e no homem) e intelectiva (característica dos animais capazes de raciocinar, como o homem). Essa estrutura é hierárquica: um ser vivo que tem intelecção tem necessariamente sensação e nutrição, mas não o contrário.

Ainda de acordo com Aristóteles, todos os seres vivos se alimentam e se reproduzem. Portanto, poderíamos considerar vivo qualquer ser capaz de crescer e de reproduzir.

segunda-feira, março 07, 2011

Para filosofar, uma paráfrase do Zaratustra

Por Nelson José de Camargo*

Zaratustra foi sozinho a Universidade. Quando lá chegou, postou-se diante dele um jovem, que havia abandonado a casa de papai e mamãe, para iniciar a construção do socialismo científico. Assim falou o jovem a Zaratustra:

"Este andarilho não é estranho para mim. Há algum tempo passou por aqui. Ele se chamava Zaratustra, mas estava perdido."

"Naquela ocasião tu trazias teus livros para o campus: ainda queres levar tua sabedoria para os jovens? Não temes o nosso ardor revolucionário?"

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Filosofia para quem?

PALESTRA PROFERIDA PELO PROFESSOR PAULO HENRIQUE FERNANDES SILVEIRA*

Essa mesa de debate foi composta, imagino que propositalmente, por pesquisadores de diferentes áreas. Na incumbência de representar o departamento de filosofia, não pretendo convencê-los de coisa alguma, mas ficarei satisfeito se conseguir mostrar a pertinência de certas questões sobre o ensino e a pesquisa.

Na última segunda-feira, 14/9/2009, num grande jornal de São Paulo, Luiz Felipe Pondé, colunista e professor universitário, elaborou um relatório sobre o ensino e a pesquisa no Brasil:

CLÓVIS ROSSI pergunta em sua coluna do dia 8 de setembro, página A2, se no Brasil vivemos algo como o que acontece hoje na vida universitária da Espanha: desinteresse dos alunos e asfixia burocrática dos professores. Sim, há semelhanças.

Nos anos 50, o filósofo norte-americano Russel Kirk descrevia um fenômeno interessante nas universidades americanas.

A partir do momento em que a vida acadêmica se tornou objetivo da ‘classe média’, gente sem posses, a vida universitária entrou em agonia porque a proletarização dos acadêmicos se tornou inevitável” (Pondé, L. “Um relatório para a academia”, In. FOLHA DE SÃO PAULO, 14/9/2009, E9).”

Esse tal filósofo americano, Russel Kirk, foi um defensor de várias teses conservadoras, como a da manutenção do princípio da diversidade. No texto Dez Princípios conservadores, Kirk afirma :